“A saúde é coisa grave demais para ser confiada aos médicos”

Entrevista com o ex-reitor da Unifesp, Hélio Egydio Nogueira, sobre a saúde brasileira e o SUS

Heliana Nogueira | 11.11.2014
Hélio Egydio Nogueira

Hélio Egydio Nogueira foi diretor superintendente do Hospital São Paulo (1985-1992), reitor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) de junho de 1995 a junho de 2003 e presidente do Conselho Científico da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) de São Paulo (2007 a 2009). É vice-presidente da Colsan (Associação Beneficente de Coleta de Sangue). Em reconhecimento por sua trajetória profissional, recebeu os seguintes títulos: cidadão emérito de Guaratinguetá (SP), cidadão honorário de Ipauçu (SP), cidadão honorário de Diadema (SP) e cidadão paulistano. Nesta entrevista, Hélio Egydio fala sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), criado em 1988 para ser o sistema de saúde de todos os brasileiros.

Como o senhor avalia a saúde brasileira e o SUS?

HEN – Certa vez, participando de um debate da Pastoral da Saúde em Ilhéus, ouvi uma das melhores definições sobre saúde: "Saúde é vida. É a vida bem vivida." A saúde congrega muita coisa, como moradia e salário, por exemplo. E não é o SUS que vai oferecer isso. Parodiando Clémenceau, “A saúde é coisa grave demais para ser confiada aos médicos” (Georges Clémenceau (1841 - 1929), “A guerra! É coisa grave demais para ser confiada aos militares). Promover a saúde não é só da alçada dos médicos.

Qual o maior problema hoje no SUS?

HEN - O financiamento. Há uma enorme defasagem na remuneração dos serviços médicos. A tabela atual de pagamento está levando ao fechamento de inúmeros hospitais, como as Santas Casas, que não têm mais condições de sobreviver com o que recebem. Grandes hospitais, como o Santa Catarina, deixaram de fazer partos ou atender crianças. O “negócio” é trabalhar com câncer, aneurismas, que “rendem” mais.

Que outros pontos são considerados emergenciais?

HEN – Um dos maiores problemas está no sistema básico de saúde. O que mais se vê é a “transporterapia”. São ambulâncias que saem de todas as partes do Brasil e vem parar na porta do Hospital das Clínicas ou do Hospital São Paulo, por exemplo. Esse é um problema sério para o SUS. Faltam hospitais regionais e os grandes hospitais ficam lotados, com casos que em sua maior parte não são emergência. Outra questão é o desaparecimento do clínico geral, que não tem pagamento reconhecido pelo SUS. Todo médico hoje quer ser especialista. Um terceiro ponto é a saúde escolar, fundamental para a prevenção, que desapareceu. Antigamente, o atendimento à saúde de meninos e meninas começava na escola, onde recebiam todas as vacinas, eram direcionados para atendimentos especializados, tinham dentista. Mas há uma série de outros problemas, como a formação nas escolas médicas. Os alunos hoje não aprendem mais a examinar, conversar, conhecer me lhor o paciente. Aprendem a mexer com máquinas e a pedir exames. Este é um problema grave para o SUS.

Existem pontos positivos no sistema?

HEN - Sim. O SUS é uma brilhante política de saúde. Há de se levar em conta que é ainda jovem. O sistema está se construindo, lentamente, e ainda tem problemas emergenciais, além da tabela de pagamento onde, a cada R$ 100,00 gastos, recebe-se apenas R$ 40,00. Mas há de se destacar importantes pontos positivos, como o atendimento à Aids e outras doenças infecciosas, a assistência maternal e a puericultura.

O senhor acredita, então, no SUS?

HEN – Apesar de tudo e de todos, acredito. Muita coisa precisa ser revista, mas bendito seja o SUS.